The Theosophical Society,

Escritas do Annie Besant

(1847 -1933)
O
Cristianismo Esotérico
ou
Os Mistérios Menores
De
Annie
Besant
3ª Impressão
Reimpresso em 1914
Ingles:- Esoteric
Christianity
Prefácio
CAPÍTULO I O Lado Oculto das Religiões
CAPÍTULO II O Lado Oculto do Cristianismo
CAPÍTULO III O Lado Oculto do
Cristianismo - Conclusão
CAPÍTULO IV O Cristo Histórico
CAPÍTULO V O Cristo Mítico
CAPÍTULO VI O Cristo Místico
CAPÍTULO VII A Expiação dos Pecados
CAPÍTULO VIII Ressurreição e Ascensão
CAPÍTULO IX A Trindade
CAPÍTULO X A Oração
CAPÍTULO XI O Perdão dos Pecados
CAPÍTULO XII Os Sacramentos
CAPÍTULO XIII Os Sacramentos - Continuação
CAPÍTULO XIV Revelação
“Ao procedermos à
contemplação dos mistérios do conhecimento, havemos de aderir à celebrada e
venerável regra da tradição, começando pela origem do universo, apresentando
aqueles pontos da contemplação física que é necessário termos como base, e
removendo quaisquer obstáculos que possam haver no caminho; de modo que o
ouvido possa ser preparado para a recepção da tradição da Gnose, sendo limpo de
ervas daninhas o solo e preparado para o plantio do vinhedo; pois há um
conflito antes do conflito, e mistérios antes dos mistérios”. São Clemente de
Alexandria
“Que a amostra baste para
os que tem ouvidos. Pois não se requer desvelar o mistério, mas apenas indicar
o que é suficiente”. São Clemente de Alexandria
“Quem tiver ouvidos, que
ouça”. São Mateus
O objetivo deste livro é
sugerir certas linhas de pensamento sobre as profundas verdades subjacentes ao
Cristianismo, verdades geralmente consideradas de modo superficial, e mui
freqüentemente negadas. O generoso desejo de dividir com todos o que é
precioso, de disseminar amplamente verdades inestimáveis, de não excluir
ninguém da iluminação do conhecimento, resultou em um zelo indiscriminado que
vulgarizou o Cristianismo, e tem apresentado seus ensinamentos sob uma forma
que freqüentemente repele o coração e aliena o intelecto. O mandamento de “pregar
o Evangelho a todas as criaturas” (Marcos, XVI, 15) - embora reconhecidamente
de autenticidade duvidosa - tem sido interpretado como proibindo o ensino da
Gnose só a poucos, e aparentemente ignorou o dito menos popular do mesmo Grande
Instrutor: “Não deis o que é santo aos cães, nem lanceis vossas pérolas aos
porcos” (Mateus, VII, 6).
Este sentimentalismo
espúrio - que se recusa a reconhecer as desigualdades óbvias de inteligência e
moralidade, e por isso rebaixa o ensino do altamente evoluído para o nível
alcançável pelo menos evoluído, sacrificando o mais elevado ao menos elevado de
um modo que prejudica a ambos - não tinha lugar no viril bom senso dos Cristãos
primitivos. São Clemente de Alexandria diz incisivamente, após aludir aos
Mistérios: “Mesmo agora eu receio,
Se o verdadeiro
conhecimento, a Gnose, há de formar parte novamente dos ensinos Cristãos, só
poderá sê-lo com as antigas restrições, e a idéia de o rebaixarmos às
capacidades dos menos evoluídos deve definitivamente ser abandonada.. Somente
pelo ensino acima do nível de compreensão do pouco evoluído pode ser aberto o
caminho para uma restauração do conhecimento arcano, e o estudo dos Mistérios
Menores deve preceder o dos Maiores. Os Maiores jamais serão publicados através
de livros; eles só podem ser transmitidos de Mestre a discípulo, “da boca para
o ouvido”. Mas os Mistérios Menores, que são o desvelar parcial de verdades
profundas, podem ser restaurados agora mesmo, e um volume
Este é o caminho da
Sabedoria Divina, da verdadeira TEOSOFIA. Ela não é,
Muitos, talvez a maioria,
que virem o título deste livro, de imediato objetarão, e negarão que haja
qualquer coisa valiosa que possa ser descrita corretamente
É necessário, portanto,
provar claramente que pelo menos na Igreja Primitiva o Cristianismo não ficava
nem uma vírgula atrás das outras grandes religiões no fato de possuir um lado oculto,
e que ele guardava,
A primeira questão que
devemos responder é: Qual é o objetivo das religiões? Elas são dadas ao mundo
por homens mais sábios do que as massas do povo ao qual são outorgadas, e têm o
propósito de estimular a evolução humana. A fim de fazer isto efetivamente elas
devem atingir os indivíduos e influenciá-los. Mas os homens não estão todos no
mesmo nível de evolução, a evolução poderia ser figurada
A seguir vem a questão: De
que modo as religiões procuram estimular a evolução humana? As religiões buscam
desenvolver as naturezas moral e intelectual, e auxiliar a natureza espiritual
a desabrochar. Considerando o homem
Ela assim não apenas se
dirige à inteligência e às emoções, mas procura,
A religião, assim, satisfaz
esta ânsia, e tomando conta do constituinte humano que lhe dá surgimento, o treina,
fortalece, purifica e guia em direção ao seu fim próprio - a união do Espírito
humano com o divino, de modo “que Deus possa ser tudo em todos” (I Coríntios,
XV, 28).
A próxima pergunta com que
nos deparamos neste estudo é: Qual a origem das religiões? A isto foram dadas
duas respostas nos tempos modernos - a da Mitologia Comparada e a da Religião
Comparada. Ambas respaldam suas respostas em uma única base comum de fatos
admitidos. A pesquisa provou irrefutavelmente que as religiões do mundo são marcadamente
semelhantes nos seus ensinamentos principais, na existência de Fundadores que
apresentam poderes sobre-humanos e extraordinária elevação moral, nos seus
preceitos éticos, no seu uso de meios para entrar em contato com os mundos
invisíveis, e nos símbolos pelos quais expressam suas crenças principais. Esta
similaridade, chegando em muitos casos até a identidade, prova - de acordo com
ambas escolas - uma origem comum.
Mas sobre a natureza desta
origem comum as duas escolas estão em litígio. Os Mitologistas Comparados
pretendem que a origem comum seja a ignorância comum, e que as mais elevadas
doutrinas religiosas sejam simplesmente expressões refinadas das crenças cruas
e bárbaras dos selvagens, dos homens primitivos, a respeito de si mesmos e do
seu ambiente. O animismo, o fetichismo, o culto à natureza, o culto ao sol -
estes são os constituintes do barro primevo do qual brotou o esplêndido lírio
da religião. Um
A Religião Comparada
considera, por outro lado, que todas as religiões sejam originadas dos
ensinamentos dos Homens Divinos, que dão a diferentes nações do mundo, de
tempos em tempos, as partes das verdades fundamentais da religião que os povos
são capazes de receber, ensinando sempre a mesma moralidade, inculcando o uso
de meios similares, empregando os mesmos símbolos significativos. As religiões
selvagens - animismo e o resto - são degenerações, resultados da decadência,
distorcidos e atrofiados descendentes das verdadeiras crenças religiosas. O
culto ao sol e as formas puras de culto à natureza foram, em seus dias, nobres
religiões, altamente alegóricas, mas cheias de verdade e conhecimento
profundos. Os grandes Instrutores - como é proclamado pelos Hinduístas,
Budistas, por alguns que estudam a Religião Comparada, como os Teosofistas -
formam uma Fraternidade perene de homens que se elevaram para além da
humanidade, que aparecem em certas épocas para iluminar o mundo, e que são os
guardiães espirituais da raça humana. Esta visão pode ser resumida na frase: “As
religiões são ramos de um tronco único - a Sabedoria Divina”.
Esta Sabedoria Divina é
chamada de Sabedoria, Gnose, Teosofia, e alguns, em diferentes eras do mundo,
desejaram enfatizar assim sua crença nesta unidade das religiões preferindo o
nome eclético de Teosofia, antes do que qualquer designação mais estreita.
O valor relativo dos
argumentos das duas escolas opostas deve ser julgado pela reunião das
evidências apresentadas por cada uma. A aparição de uma forma degenerada de uma
idéia nobre pode semelhar-se muito ao produto refinado de uma idéia grosseira,
e o único método de discernir entre degeneração e evolução seria o exame, se
possível, de formas ancestrais intermediárias e remotas. A evidência trazida
pelos crentes na Sabedoria é deste tipo. Eles alegam que os Fundadores das
religiões, a julgar pelo registro de seus ensinamentos, estavam muito acima do
nível médio da humanidade; que as Escrituras das religiões contêm preceitos
morais, ideais sublimes, aspirações poéticas, profundas asserções filosóficas,
dos quais sequer se aproximam em beleza e elevação os escritos posteriores nas
mesmas religiões - isto é, que o antigo é mais elevado do que o novo, em vez de
o novo ser mais elevado que o antigo -; que não pode ser demonstrado nenhum
caso do processo de refinamento e melhoramento suposto ser a fonte das
religiões atuais, enquanto que podem ser apresentados muitos casos de
degeneração de ensinos puros; que mesmo entre os selvagens, se suas religiões
forma cuidadosamente estudadas, muitos traços de idéias elevadas podem ser
encontrados, idéias que obviamente estão acima da capacidade dos próprios
selvagens em produzi-las.
Esta última idéia foi
desenvolvida por Andrew Lang, que - a julgar pelo seu livro The Making of
Religion - deveria ser classificado como adepto da Religião Comparada antes do
que da Mitologia Comparada. Ele aponta para a existência de uma tradição comum,
a qual, alega ele, não pode ter sido desenvolvida pelos selvagens por si
mesmos, sendo homens cujas crenças ordinárias são do tipo mais tosco e cujas
mentes são pouco desenvolvidas. Ele mostra, debaixo de crenças brutas e visões
degradadas, elevadas tradições de um caráter sublime, chegando mesmo a tratar da
natureza do Ser Divino e Suas relações com os homens. As deidades adoradas são,
em sua maior parte, verdadeiros demônios, mas por trás, para além de todos
eles, existe uma tênue mas gloriosa Presença acima de tudo, raramente ou nunca
nomeada, mas sussurrada como sendo a fonte de tudo, como poder, amor e bondade,
terna demais para despertar terror, boa demais para requerer preces. Tais
idéias manifestamente não podem ter sido concebidas pelos selvagens onde são
encontradas, e elas permanecem
A razão, e na verdade a
justificação, da visão dos que assumem a Mitologia Comparada é patente. Eles
encontram em todas as direções formas inferiores de fé religiosa, existindo
entre tribos selvagens. Isto foi visto
Ainda prosseguindo em nossa
pesquisa, passamos à próxima questão: A que povos as religiões foram dadas? E
aqui de imediato chegamos a uma dificuldade com a qual todo Fundador de
religião deve lidar, aquela já mencionada envolvendo o objetivo primário da
própria religião, a estimulação da evolução humana, com seu corolário de que
todos os graus da humanidade em evolução devem ser considerados por Ele. Homens
em todos os estágios de evolução, do mais bárbaro ao mais desenvolvido; são
encontrados homens de elevada inteligência, mas também de mentalidade a mais
subdesenvolvida; em um local existe uma civilização altamente desenvolvida e
complexa, em outro, uma política crua e simples. Mesmo dentro de cada
civilização encontramos os tipos mais variados - o mais ignorante e o mais
educado, o mais pensativo e o mais relaxado, o mais espiritual e o mais brutal;
mesmo assim cada um destes tipos deve ser alcançado, e cada um deve ser ajudado
no estágio em que estiver. Se a evolução for uma verdade, esta dificuldade é
inevitável, e deve ser enfrentada e superada pelo Instrutor divino, senão Sua
obra será um fracasso. Se o homem está evoluindo
Assim somos trazidos face a
face à evidência de que não pode haver só um e o mesmo ensino religioso sequer
para uma só nação, muito menos para uma civilização que seja, ou para o mundo
todo. Se houver apenas um ensino, um grande número daqueles a quem seria
endereçada escapariam inteiramente á sua influência. Se for conformada àqueles
cuja inteligência é limitada, cuja moralidade é elementar, cujas percepções são
obtusas, de modo que possa ajudá-los e treiná-los, capacitando-os assim a
evoluir, seria uma religião completamente inadequada para aqueles homens,
vivendo na mesma civilização, que têm percepções morais finas e delicadas,
inteligência brilhante e sutil, e uma espiritualidade em evolução. Mas se, por
outro lado, esta última classe há de ser auxiliada, se à inteligência há de ser
dada uma filosofia que possa ser considerada admirável, se as delicadas
percepções morais hão de ser ainda mais refinadas, se à natureza espiritual que
desperta há de ser possibilitado que frutifique até a plenitude, então a
religião deve ser tão espiritual, tão intelectual, e tão moral, que quando for
pregada à primeira classe não tocará suas mentes ou seus corações, para eles
será como um rosário de frases sem sentido, incapazes de suscitar sua
inteligência latente, ou de dar-lhes qualquer padrão de conduta que os ajude a
evoluir para uma moralidade mais pura.
Olhando, então, para estes
fatos a respeito da religião, considerando seu objetivo, seus meios, sua
origem, a natureza e variadas necessidades dos povos a quem foi endereçada,
reconhecendo a evolução das faculdades espirituais, intelectuais e morais no
homem, e a necessidade de cada homem por um treinamento tal que lhe seja
adequado para o estágio de evolução em que chegou, somos conduzidos à absoluta
necessidade de um ensinamento religioso variado e graduado tal que atenda a
estas diferentes necessidades e ajude a cada homem em sua própria posição.
Existe ainda uma outra
razão pela qual o ensinamento esotérico é desejável a respeito de certas
classes de verdades. Este é eminentemente o fato a respeito desta classe que “conhecimento
é poder”. A promulgação pública de uma filosofia profundamente intelectual,
suficiente para treinar um intelecto altamente desenvolvido e atrair a adesão
de uma mente excelsa, não pode prejudicar ninguém. Pode ser pregada sem
hesitação, pois não atrai o ignorante, que se afastará dela considerando-a
seca, rígida e desinteressante. Mas existem ensinamentos que tratam da
constituição da natureza, explicam leis recônditas, e lançam luz sobre
processos ocultos, cujo conhecimento dá controle sobre energias naturais, e
capacitam seu possuidor a dirigir estas energias para certos fins, do mesmo
modo que o químico lida com a produção de compostos químicos. Tal conhecimento
pode ser bastante útil para homens altamente evoluídos, e pode aumentar seu
poder de servir a raça. Mas se este conhecimento fosse publicado ao mundo,
poderia ser e seria mal empregado, assim
Tampouco isso é um assunto
teórico, de acordo com os Registros Ocultos, que dão detalhes dos eventos
aludidos no Gênesis VI et seq. Este conhecimento, naqueles antigos dias e no
continente de Atlantis, foi dado sem nenhum requisito rígido a respeito da
elevação moral, pureza e altruísmo dos candidatos. Aqueles que eram
intelectualmente qualificados eram ensinados, assim
Desde aquela experiência do
perigo de permitir-se mãos impuras tocar no conhecimento que é poder, os
grandes Instrutores impuseram rígidas condições sobre pureza, altruísmo e
autocontrole para todos os candidatos àquela instrução. Eles terminantemente
recusam transmitir conhecimento deste tipo a quem quer que seja que não se
sujeite a uma rígida disciplina, planejada para eliminar a separatividade de
sentimento e interesses. Eles avaliam a força moral do candidato ainda mais do
que seu desenvolvimento intelectual, pois o próprio conhecimento desenvolverá o
intelecto, enquanto ele coloca um freio sobre a natureza moral. É muito melhor
que os Grandes sejam acusados pelo ignorante, por Seu suposto egoísmo em reter
o conhecimento, do que Eles terem de precipitar o mundo em outra catástrofe
Atlante.
Apresentamos muita teoria
sobre a necessidade de um lado oculto em todas as religiões. Quando da teoria
passamos aos fatos, naturalmente perguntamos: Este lado oculto existiu no
passado, formando parte das religiões do mundo? A resposta deve ser uma
imediata e convicta afirmativa; todas as grandes religiões têm alegado possuir
um ensinamento oculto, e têm declarado que ele é o repositório do conhecimento
místico - ou oculto - teórico, e ainda mais do prático. A explicação mística de
ensino popular era pública, e a expunha
Esta posição não pode ser
considerada controversa a respeito das antigas religiões. Os Mistérios do Egito
eram a glória daquela terra antiga, e os mais nobres filhos da Grécia, como
Platão, foram para Saís e para Tebas para serem iniciados pelos Instrutores de
Sabedoria egípcios. Os Mistérios Mitraicos dos persas, os Mistérios Órficos e
Báquicos e mais tarde os semiMistérios Eleusinos dos gregos, os Mistérios da
Samotrácia, Cítia, Caldéia, de nome são familiares, senão pelo menos como frases
feitas. Mesmo nas formas extremamente diluídas dos Mistérios Eleusinos, seu
valor é mui altamente louvado pelos mais eminentes homens da Grécia, como
Píndaro, Sófocles, Isócrates, Plutarco, e Platão. Eles eram considerados
especialmente úteis com relação à existência pós-morte, e o iniciado aprendia
aquilo que garantiria sua futura felicidade. Sopater alegou ainda que a
Iniciação estabelecia uma afinidade da alma com a Natureza divina, e no
exotérico Hino a Deméter são feitas referências veladas ao santo infante,
Iacchus, e à sua morte e ressurreição, assim como eram apresentadas nos
Mistérios (vide o artigo “Mistérios”, Encyclopaedia Britannica, 9ª ed.
inglesa).
De Jâmblico, o grande
teurgo dos séculos III e IV, muito pode ser aprendido sobre o objetivo dos
Mistérios. Teurgia era magia, “a última parte da ciência sacerdotal” (Psellus,
citado por T. Taylor em Iamblicus on the Mysteries, p.343, nota na p. 23, 2ª
ed.) e era praticada nos Grandes Mistérios para evocar a aparição de Seres
superiores. A teoria sobre onde se baseiam estes Mistérios pode ser apresentada
brevemente da seguinte forma: Existe UM, antes de todos os seres, imóvel,
habitando na solidão de Sua própria unidade.
D’AQUELE surge o Deus Supremo, o Auto-engendrado, a Bondade, a Fonte de
todas as coisas, a Raiz, o Deus dos Deuses, a Causa Primordial, desdobrando-Se
em Luz (Iamblicus, sic ante, p. 301). D’Ele brota o Mundo Inteligível, ou
universo ideal, a Mente Universal, Nous, e os Deuses incorpóreos ou
inteligíveis relacionados a ela. Dali surge a Alma Mundial, a que pertencem “as
formas intelectuais divinas que existem junto dos corpos visíveis dos Deuses”
(Ibid., p. 72). Então derivam várias hierarquias de seres super-humanos,
Arcanjos Arcontes (Regentes) ou Cosmocratores, Anjos, Gênios [Daimons, no
original - NT], etc. O Homem é um ser de ordem inferior, aliado àqueles em sua
natureza, e capaz de conhecê-los; seu conhecimento era adquirido nos Mistérios,
e conduzia á união com Deus (O artigo Mysteries da Enc. Britannica tem a
seguinte continuação no ensinamento de Plotino [204-206 dC]: “O UM [o deus
Supremo citado antes] é exaltado acima de nous e das idéias; transcende toda a
existência e não é cognoscível pela razão. Permanecendo Ele mesmo em repouso,
como que irradia de sua própria plenitude uma imagem de Si mesmo, chamada nous,
e que constitui o sistema de idéias do mundo inteligível. A
O ponto culminante dos
Mistérios era quando o Iniciado se tornava um deus, seja pela união com um Ser
divino fora de si, seja pela percepção do Eu divino em si. Isso era chamado
êxtase, e era um estado que o Yogi indiano chamaria Samadhi, sendo posto em
transe o corpo denso e a alma liberta efetuando sua própria união com o Grande
Ser. Este “êxtase não é propriamente falando uma faculdade, é um estado da
alma, que a transforma de tal modo que então ela percebe o que antes estava
oculto de si. O estado não era permanente antes que nossa união com Deus fosse
irrevogável; aqui, na vida terrena, o êxtase não passa de um instante... O
homem pode cessar de ser homem, e passar a ser Deus; mas o homem não pode ser
Deus e homem ao mesmo tempo”(G.R.S.Mead, Plotinus, p. 42-43). Plotino declara
ter atingido este estado “somente três vezes”.
Também Proclo ensinou que a
única salvação da alma era retornar à sua forma intelectual, e assim escapar do
“ciclo de geração, das peregrinações multiplicadas”, e atingir o verdadeiro
Ser, “a energia simples e uniforme do período de igualdade [sameness, no
original - NT], em vez do movimento abundantemente errante do período em que é
caracterizada pela diferença”. Esta é a vida procurada pelos iniciados por
Orfeu nos Mistérios de Baco e Prosérpina, e este é o resultado da prática das
virtudes purificativas, ou catárticas (Iamblichus, p. 364, nota na p. 134).
Estas virtudes eram necessárias para os Grandes
Mistérios, já que estavam relacionadas à purificação do corpo sutil, no qual a
alma atuava quando fora do corpo denso. As virtudes políticas ou práticas
pertenciam à vida comum dos homens, e era requerido que existissem em certo
grau antes que ele pudesse ser candidato mesmo para uma Escola tal como a
descrita antes. Então vinham as virtudes catárticas, pelas quais o corpo sutil,
o das emoções e da mente inferior, era purificado; em terceiro lugar vinham as
virtudes intelectuais, pertencendo ao Augoeides, ou a forma luminosa do
intelecto; em quarto, as contemplativas, ou paradigmáticas, pelas quais era
realizada a união com deus. Porfírio escreve: “Aquele que age de acordo com as
virtudes práticas é um homem digno; mas o que age de acordo com as virtudes
purificativas é um homem angélico, ou também um gênio [daimon, no original -
NT] bom. Aquele que atua de acordo só com as virtudes intelectuais é um Deus;
mas o que age de acordo com as virtudes paradigmáticas é o Pai dos Deuses”
(G.R.S.Mead, Orpheus, pp. 285-286).
Também era dada muita
instrução nos Mistérios pelas hierarquia angélica e outras, e de Pitágoras, o
grande instrutor que foi iniciado na Índia, e que deu “o conhecimento das
coisas que são” aos seus discípulos eleitos, é dito ter possuído um
conhecimento tal de música que ele podia usá-la para controlar as mais
selvagens paixões dos homens, e para iluminar suas mentes. São dados exemplos
disto por Jâmblico em sua Vida de Pitágoras. Parece provável que o título de
Teodidacto [”ensinado por Deus” - NT], dado a Amônio Saccas, o mestre de
Plotino, se referia menos à sublimidade de seus ensinamentos do que á divina
instrução por ele recebida nos Mistérios.
Alguns dos símbolos usados
são explicados por Jâmblico (Iamblicus, p. 864, nota na p. 134) que diz para
Porfírio remover de seu pensamento na imagem da coisa simbolizada e chegar em
seu significado intelectual. Assim “lodo” significa tudo o que é corpóreo e
material; o “Deus sentado sobre o lótus” significava que Deus transcendia tanto
o lodo quanto o intelecto, simbolizado pelo lótus, e estava estabelecido em Si
mesmo, estando sentado. Seu domínio sobre o mundo era figurado na expressão “navegando
em um barco”, e assim por diante (Ibid., p. 205 et seq). Sobre este uso dos
símbolos Proclo assinala que “o método Órfico almejava a revelação das coisas
divinas por meio de símbolos, um método comum a todos os escritores sobre a
sabedoria divina” (G.R.S. Mead, Orpheus, p. 59).
A Escola Pitagórica na
Magna Grécia foi fechada no final do século VI aC, devido à perseguição do
poder civil, mas outras comunidades existiam, preservando a tradição sagrada
(Ibid., p. 30). Mead declara que Platão a intelectualizara a fim de protegê-la
de uma crescente profanação, e os ritos Eleusinos preservaram algumas de suas
formas, tendo perdido sua substância. Os Neoplatônicos herdaram de Pitágoras e
Platão, e seus trabalhos deveriam ser estudados por aqueles que percebiam algo
da grandeza e beleza preservadas para o mundo nos Mistérios.
A Escola Pitagórica em si
serve
A estreita identidade entre
os métodos e objetivos seguidos nestes diversos Mistérios e aqueles do Yoga na
Índia é patente até ao observador mais superficial. Não é, contudo, necessário
supormos que as nações da antigüidade beberam na Índia; todas beberam de uma
única fonte, a Grande Loja da Ásia Central, que enviava seus Iniciados a todas
as terras. Todos eles ensinavam as
mesmas doutrinas, seguiam os mesmos métodos, conduzindo aos mesmos fins. Mas
havia muita intercomunicação entre os Iniciados de todas as nações, e havia uma
linguagem comum e um simbolismo comum. Deste modo Pitágoras esteve entre os
Indianos, e recebeu na Índia uma alta Iniciação, e Apolônio de Tyana mais tarde
seguir suas pegadas. Muito indianas em sua forma assim
Entre os Hinduístas o dever
de ensinar o conhecimento supremo só ao digno era estritamente enfatizado. “O
mais profundo mistério da culminação do conhecimento... não deve ser declarado
a alguém que não seja um filho ou um discípulo, e a quem não é tranqüilo de
mente” (Shvetâshvataropanishad, VI, 22). Novamente, depois de um resumo de
Yoga, lemos: “Levantai! Despertai! Tendo encontrado os Grandes Seres, ouvi! O
caminho é tão difícil de andar
Também foi dito que o homem
deveria aprender a deixar o corpo denso: “Que um homem a separe (a alma) com
firmeza de seu próprio corpo, como o cerne do talo de capim de seu invólucro”
(Kathopanishad, VI, 17). E foi escrito: “No mais elevado corpo dourado reside o
Brahman imaculado, imutável; Ele é a radiosa, branca Luz das luzes, conhecida
dos que conhecem o Eu” (Mundakopanishad, II, II, 9). “Quando o vidente vir o
Criador dourado, o Senhor, o Espírito, cujo seio é Brahman, então, tendo
arrojado de si mérito e demérito, imaculado, o sábio atinge a mais elevada
união” (Ibid., III, I, 3).
Tampouco estavam os Hebreus
desprovidos de seu conhecimento secreto e suas Escolas de Iniciação. A
companhia dos profetas em Naioth, presidida por Samuel (I Samuel, XIX, 20)
formava uma destas Escolas, e o ensinamento oral era transmitido por eles.
Escolas similares existiam em Bethel e Jericó (II Reis, II, 2, 5) e na
Concordância de Cruden (Verbete Escola) há a seguinte nota interessante: “As
Escolas ou Colégios dos profetas são as primeiras (escolas) de que temos qualquer
notícia na Escritura; onde os filhos dos profetas, isto é, seus discípulos,
viviam nos exercícios de uma vida retirada e austera, em estudo e meditação, e
na leitura da lei de Deus... Estas Escolas, ou Sociedades, dos profetas foram
sucedidas pelas Sinagogas”. A Kabbala, que contém os ensinos semipúblicos, é,
na forma que subsiste hoje, uma compilação moderna, parte da qual é trabalho do
Rabbi Moisés de Leão, que morreu em 1305. Ela consiste de cinco livros, Bahir,
Zohar, Sepher Sephiroth, Sepher Yetzirah, e Asch Metzareth, e é dito ter sido
transmitida oralmente desde tempos muito antigos—como antigüidade, é
reconhecida historicamente. O Dr. Wynn Westcott diz que “a tradição Hebraica
atribui às partes mais antigas do Zohar uma data que anteceda a construção do
segundo Templo”; e é dito que o Rabbi Simeão ben Jochai colocou por escrito
partes dele no primeiro século depois de Cristo. O Sepher Yetzirah é mencionado
por Saadjah Gaon, que morreu em 940 dC, como sendo “muito antigo” (Dr. Wynn
Westcott, Sepher Yetzirah, p. 9). Algumas partes do ensinamento oral foram
incorporadas à Kabbala na forma em que ela se encontra hoje, mas a verdadeira
sabedoria arcaica dos Hebreus permanece sob guarda de alguns poucos dos
verdadeiros filhos de Israel.
Breve como é este esboço, é
contudo suficiente para demonstrar a existência de um lado oculto nas religiões
do mundo além do Cristianismo, e podemos agora examinar a questão de se o
Cristianismo foi uma exceção a esta regra universal.
Tendo visto que as
religiões do passado reivindicaram uníssonas ter um lado oculto, ser custódias
de “Mistérios”, e que esta reivindicação foi endossada pela busca de Iniciação
pelos homens mais eminentes, devemos agora averiguar se o Cristianismo fica
fora deste círculo de religiões, sozinho sem uma Gnose, oferecendo ao mundo uma
fé simples e não um conhecimento profundo. Se for assim, seria em verdade um
fato triste e lamentável, provando ser o Cristianismo apenas destinado a uma só
classe, e não a todos os tipos de seres humanos. Mas que isto não é assim,
seremos capazes de provar além da possibilidade de dúvida racional.
E esta prova é a coisa que
a Cristandade mais urgentemente necessita nestes tempos, pois até a própria
flor da Cristandade está perecendo por falta de conhecimento. Se o ensino
esotérico puder ser restabelecido e angariar estudantes pacientes e dedicados,
não demorará muito para que o lado oculto também seja restaurado. Discípulos
dos Mistérios Menores se tornarão candidatos aos Maiores, e com a reobtenção do
conhecimento voltará também a autoridade do ensinamento. E de fato a
necessidade é grande. Pois, olhando para o mundo em
A razão para esta revolta
jaz no gradual rebaixamento do ensinamento Cristão para uma alegada simplicidade,
para que o mais ignorante pudesse ser capaz de compreendê-lo. Os religiosos
Protestantes assertaram sonoramente que nada deveria ser pregado exceto aquilo
que pudesse ser compreendido, que a glória do Evangelho está em sua
simplicidade, e que a criança e o inculto deveriam ser capazes de entendê-lo e
aplicá-lo à vida. Bastante verdadeiro, se com isto se quisesse dizer que
existem algumas verdades religiosas que todos podem entender, e que a religião
falha se deixa o mais inferior, o mais ignorante, o mais estúpido, de fora de
sua influência elevadora. Mas falso, completamente falso, se com isso se quiser
dizer que a religião não tem verdades que o ignorante não possa compreender,
que é uma coisa tão pobre e limitada a ponto de não ter nada para ensinar que
esteja acima do pensamento do não inteligente ou acima do nível moral do
degradado. Falso, fatalmente falso, se este for seu sentido; pois à medida que
esta visão se espalha, ocupando os púlpitos e sendo proclamada nas igrejas,
muitos homens e mulheres nobres, cujos corações quase se partem quando rompem
sua ligação que os une à sua antiga fé, saem das igrejas, e deixam seus lugares
ser preenchidos pelos hipócrita e pelo ignorante. Eles ou passam para um estado
de agnosticismo passivo, ou - se são jovens e entusiastas - para uma condição
de agressão ativa, não acreditando que aquilo que poderia ser a coisa mais
elevada ultraje tanto o intelecto como a consciência, e preferem a honestidade
de uma descrença aberta ao embotamento do intelecto e da consciência sob
imposição de uma autoridade em quem não reconhecem nada que seja divino.
Neste estudo do pensamento
de nosso tempo vemos que a questão de um ensinamento oculto em conexão com o
Cristianismo se torna de importância vital. O Cristianismo há de sobreviver
Mais uma vez voltemos
nossos olhos para a história, para vermos se o Cristianismo foi único entre as
religiões em não possuir nenhum conhecimento interno, ou se assemelhou-se a
todas as outras possuindo este tesouro oculto. Este problema é uma questão de
evidência, não de teoria, e deve ser decidido pela autoridade dos documentos
existentes e não pelo mero “assim se diz” dos Cristãos modernos.
É fato que tanto o Novo
Testamento e os escritos da Igreja Primitiva fazem as mesmas declarações sobre
a posse de tais ensinamentos pela Igreja, e sabemos a partir deles do fato da
existência dos Mistérios - chamados Mistérios de Jesus, ou Mistério do Reino -,
das condições impostas aos candidatos, algo da natureza geral dos ensinamentos
dados, e outros detalhes. Certas passagens no Novo Testamento ficariam
inteiramente obscuras, não fosse pela luz lançada neles pelas declarações
definidas dos Padres e Bispos da Igreja, mas debaixo daquela luz elas se tornam
claras e inteligíveis.
Teria na verdade sido
estranho se fosse diferente, quando consideramos as linhas do pensamento
religioso que influenciaram o Cristianismo primitivo. Aliado aos hebreus, os
persas, os gregos, tinto pelos antigos credos da Índia, profundamente colorido
pelo pensamento sírio e egípcio, este último ramo do grande tronco religioso
não poderia fazer outra coisa senão reafirmar as antigas tradições, colocando
ao alcance das raças ocidentais todo o tesouro das tradições antigas. “A fé
antigamente confiada aos
A primeira evidência a ser
examinada é a do Novo Testamento.
As palavras do próprio
Mestre são claras e definidas, e foram,
Novamente, Jesus diz até
mesmo aos Seus apóstolos: “Eu ainda tenho muitas coisas para vos dizer, mas
ainda não sois capazes de as receber” (João, XVI, 12). Algumas delas
provavelmente foram ditas depois de Sua morte, quando Ele foi visto pelos
discípulos “falando das coisas pertencentes ao Reino de Deus” (Atos, 1, 3). Nenhuma
delas foi registrada publicamente, mas quem pode acreditar que foram deixadas
de lado ou esquecidas, e não preservadas
Havia diversos nomes, além
do termo “O Mistério”, ou “Os Mistérios”, usados para designar o círculo
sagrado de Iniciados ou ligados à Iniciação: “O Reino”. “O Reino de Deus”, O
Reino dos Céus”, A Vereda Estreita”, “A Porta Estreita”, “O Perfeito”, “O Salvo”,
“Vida Eterna”, “Vida”, “O Segundo Nascimento”, “O Pequenino”, “A Criancinha”. O
significado é tornado claro pelo uso destas palavras nos primeiros escritos
Cristãos, e em alguns casos fora do círculo Cristão. Assim, o termo “O Perfeito”
era usado pelos Essênios, que tinham três graus em suas comunidades: os
Neófitos, os Irmãos, e os Perfeitos - sendo estes os Iniciados; e é empregado
geralmente neste sentido nos antigos escritos. “A Criancinha” era o nome comum
para um candidato recém iniciado, isto é, aquele que recém teve seu “segundo
nascimento”.
Quando passamos a conhecer
este uso, muitas passagens de outro modo obscuras e rudes se tornam
inteligíveis. “Então um disse-lhe: Senhor, serão poucos os salvos?
Esta “Porta Estreita” era o
portal da Iniciação, através dele o candidato entrava no “Reino”. E sempre foi
e deve ser verdadeiro que somente uns poucos podem passar por aquele portal,
embora miríades - uma excepcionalmente “grande multitude, que ninguém poderia
contar” (Apocalipse, VII, 9), e não uns poucos - adentrem a felicidade do mundo
celeste. Assim também falou um outro grande Instrutor, há quase três mil anos
atrás: “Dentre milhares de homens talvez
só um se esforce pela perfeição; dentre os milhares que a obtém talvez só um Me
conheça em essência” (Bhagavad Gita, VII, 3). Pois são poucos os Iniciados em
cada geração, são a flor da humanidade; mas nenhuma frase terrível de
condenação eterna é pronunciada nesta declaração sobre a vasta maioria da raça
humana. Como Proclo ensinou (vide ante, p. 23), os salvos são os que escapam do
ciclo da geração, ao qual está atada a humanidade.
Em conexão a isto podemos
lembrar da história do jovem que veio a Jesus, e chamando-lhe de “Bom Mestre”,
perguntou
O “segundo nascimento” é um
outro termo bem conhecido para Iniciação; mesmo hoje na Índia as castas mais
elevadas são chamadas “duas vezes nascidas”, e a cerimônia que os torna duas
vezes nascidos é uma cerimônia de Iniciação - na verdade mera simulação, nos
dias de hoje, mas segue “o padrão das coisas que está no céu” (Hebreus, IX,
23). Quando Jesus está se dirigindo a Nicodemos, Ele fala que “a não ser que um
homem nasça duas vezes, não pode ver o Reino de Deus”, e este nascimento é dito
como sendo aquele “da água do Espírito” (João, III, 3, 5); esta é a primeira
Iniciação; uma ulterior é a “do Espirito Santo e do fogo” (Mateus, III, 11), o
batismo do Iniciado em sua maturidade, assim como a primeira é a do nascimento,
que o recebe como “uma Criancinha” que entra no Reino (ibid., XVIII, 3). Quão
totalmente familiares eram estas imagens entre os místicos dos Judeus é
indicado pela surpresa demonstrada por Jesus quando Nicodemos se embaraçava com
Sua fraseologia mística: “Tu és um mestre de
Um outro preceito de Jesus
que permanece
São Paulo segue nas pegadas
de seu Mestre, e fala exatamente do mesmo sentido, mas com uma explicitude e
clareza maiores, como poderia ser esperado a partir de seu trabalho organizador
na Igreja. O estudante deveria ler com atenção os capítulos II e III, e o
versículo 1 do capítulo V da Primeira Epístola aos Coríntios, lembrando, à
medida que lê, que as palavras são endereçadas aos membros batizados e
comungantes da Igreja, membros plenos no sentido moderno, embora, descritos
como bebês e carnais pelo Apóstolo. Eles não eram catecúmenos ou neófitos, mas
homens e mulheres que estava em plena posse de todos os privilégios e
responsabilidades como membros da Igreja, reconhecidos pelo Apóstolo como
estando apartados do mundo, e dos quais não esperava que se portassem como
homens do mundo. Eles estavam, de fato, de posse de tudo o que a Igreja moderna
dá aos seus membros. Resumamos as palavras do Apóstolo:
“Eu venho a vós trazendo o
testemunho divino, e não vos enganando com sabedoria humana, mas venho com o
poder do Espírito. Em verdade ‘falamos sabedoria entre os que são perfeitos, mas
não é sabedoria humana’. Falamos da sabedoria de Deus em mistério, mesmo a
sabedoria oculta, que Deus ordenou antes que o mundo existisse, a qual nem os
príncipes deste mundo conhecem. As coisas daquela sabedoria estão além do
entendimento dos homens, ‘mas Deus as revela a eles por Seu Espírito... as
coisas íntimas de Deus’, ‘ensinadas pelo Espírito Santo’ (Note-se como isto se
alinha com a promessa de Jesus em João, XVI, 12-14: “Eu tenho ainda muitas
coisas a vos dizer, mas ainda não as podeis suportar. Porém quando Ele, o
Espírito da Verdade, vier, Ele vos guiará em toda a verdade... Ele vos mostrará
as coisas do porvir... Ele as receberá de Mim e as mostrará a vós”). Estas são
coisas espirituais, a serem discernidas somente pelos homens espirituais, em quem
está a mente de Cristo. ‘E Eu, irmãos, não vos poderia falar como falo aos
espirituais, mas falo como aos carnais até mesmo para os bebês em Cristo...
Eles não eram capazes de o suportar, como vós não o suportaríeis ainda. Pois
sois ainda carnais’. Como um mestre-construtor [um outro termo técnico nos
Mistérios] Eu deixei as fundações’ e ‘vós sois o Templo de Deus, e o Espírito
de Deus habita em vós’. ‘Que um homem nos considere assim, como ministros de
Cristo, e guardiães dos Mistérios de Deus’ “.
Alguém pode ler esta
passagem - e tudo o que foi dito no resumo é para enfatizar os pontos
importantes - sem reconhecer o fato de que o Apóstolo possuía uma sabedoria
divina dada nos Mistérios, que seus seguidores coríntios ainda não eram capazes
de receber? E notem a recorrência de termos técnicos: a “sabedoria”, a “sabedoria
de Deus em mistério”, a “sabedoria oculta”, conhecida somente pelos homens “espirituais”,
falada somente entre os “perfeitos”, sabedoria da qual eram excluídos os não-“espirituais”,
os “bebês em Cristo”, e só conhecida dos “mestres construtores”, os “guardiães
dos Mistérios de Deus”.
Repetidas vezes ele se
refere a estes Mistérios. Escrevendo aos Cristãos de Éfeso ele diz que “pela
revelação”, pelo desvelamento, tinha sido feito “sabedor dos Mistérios”, e daí
seu “conhecimento dos mistérios de Cristo”; todos podiam saber sobre a “irmandade
dos Mistérios” (Efésios, III, 3, 4, 9). Sobre este Mistério, ele repete aos
colossenses que foi “feito ministro”, “o Mistério que esteve ocultos das idades
e das gerações, mas que agora era tornado manifesto aos Seus santos”; não ao
mundo, nem mesmo aos Cristãos, mas somente aos Santos. Para eles era revelada “a
glória deste Mistério”; e o que era isso? “Cristo em vós” - uma frase
significativa, que veremos, logo, pertencer à vida do Iniciado; assim
finalmente todo homem deve aprender a sabedoria, e se tornar “perfeito em
Cristo Jesus” (Colossenses, i, 23, 25-28. Mas São Clemente, em seu Stromata,
traduz “todo homem” como “o homem todo”. Vide o Livro V, cap. X). A estes
Colossenses ele ordena orar “para que Deus nos abra aporta da profecia, para
falar o Mistério de Cristo” (Colossenses, IV, 3), uma passagem à qual São
Clemente se refere como sendo uma em que o Apóstolo “revela claramente que o
conhecimento não pertence a todos” (Clemente de Alexandria, Stromata, Livro V,
cap. X; A.-N.C.L. Alguns ditos adicionais dos Apóstolos serão encontrados nas
citações de Clemente, mostrando qual significado tinham para as mentes daqueles
que sucederam os Apóstolos, e que viviam na mesma atmosfera de pensamento). Da
mesma forma também escreve ao seu bem-amado Timóteo, ordenando-lhe selecionar
seus diáconos dentre aqueles que “mantinham o Mistério da fé em uma consciência
pura”, aquele “grande Mistério da Piedade”, que ele havia aprendido (I Timóteo,
III, 9, 16), cujo conhecimento era necessário para os instrutores da Igreja.
Porém São Timóteo está em
uma posição importante como representante da geração seguinte de instrutores
Cristãos. Ele foi discípulo de São Paulo, e foi indicado por ele para guiar e
dirigir uma porção da Igreja. Ele havia sido, sabemos, iniciado nos Mistérios
pelo próprio São Paulo, e é feita referência a isto, e os termos técnicos mais
uma vez servem como chave. “Esta função te delego, meu filho Timóteo, de acordo
com as profecias que foram feitas sobre ti” (I Timóteo, I, 18), a bênção solene
do Iniciador, que admitia o candidato; mas o Iniciador não estava sozinho: “Não
descureis o dom que está em vós, o qual vos foi dado pela profecia, abandonando
o Presbitério” (ibid., IV, 14) dos Irmãos Maiores. E ele lhe adverte preservar
aquela “vida eterna, à qual também fostes chamado, e professastes um bom voto
diante de muitas testemunhas” (ibid., VI, 13) - o voto do novo Iniciado
prestado na presença dos Irmãos Maiores e da assembléia dos Iniciados. O
conhecimento dado então era a incumbência sagrada sobre a qual São Paulo fazia
tanta ênfase: “Oh Timóteo, preserva aquilo que te foi confiado” (Ibid. 20) - e
não o conhecimento comumente possuído pelos Cristãos, a respeito do qual não
havia obrigação nenhuma sobre São Timóteo, mas o depósito sagrado confiado a
ele como Iniciado, e essencial ao bem da Igreja. São Paulo mais tarde volta a
isto, enfatizando a suprema importância do assunto de um modo que teria sido
exagerado se o conhecimento fosse a propriedade comum dos homens Cristãos: “Guarda
bem a forma das sérias palavras que ouvistes de mim... Aquela boa coisa que te
foi confiada, guarda-a pelo Espírito Santo que reside em nós” (II Timóteo, I,
13,14) - uma adjuração tão séria quanto seria possível por lábios humanos. Mais
ainda, era seu dever prover a devida transmissão deste depósito sagrado, para
que pudesse transmitido ao futuro, e a Igreja nunca fosse deixada sem
Instrutores: “As coisas que ouvistes de mim entre muitas testemunhas” - os
ensinamentos orais sagrados dados na assembléia dos Iniciados, que testemunhava
a precisão da transmissão - “confia o mesmo a homens dignos, que sejam também
capazes de ensinar aos outros” (Ibid., II, 2).
O conhecimento - ou, se
preferirmos o termo, a suposição - de que a Igreja possuía estes ensinamentos
ocultos lança uma torrente de luz sobre estas diversas passagens de São Paulo
sobre si mesmo, e quando as reunimos, temos um perfil da evolução do Iniciado.
São Paulo diz que embora ele já estivesse entre os perfeitos, os Iniciados -
pois ele diz: “Que nós, portanto, que somos perfeitos, tenhamos esta
mentalidade” - ele ainda não tinha “atingido”, ainda não era em verdade
inteiramente “perfeito”, pois ainda não havia recebido Cristo, ele ainda não
havia atingido o “alto chamado de Deus em Cristo”, “o poder de Sua
ressurreição, e a companhia de Seus sofrimentos, sendo tornado conforme à Sua
morte”; e ele estava tentando, diz, “se por algum meio puder alcançar a
ressurreição dos mortos” (Filipenses, III, 8, 10-12, 14, 15). Pois esta era a
Iniciação que libertava, que fazia do Iniciado um Mestre perfeito, o Cristo
Ressurrecto, libertando-o finalmente dos “mortos”, da humanidade presa ao ciclo
da geração, dos laços que atavam a alma à matéria grosseira. Novamente aqui
temos um número de termos técnicos, e mesmo o leitor superficial deveria
perceber que a “ressurreição dos mortos” mencionada aqui não poderia ser a
ressurreição comum dos modernos Cristãos, suposta ser inevitável para todos os
homens, e portanto não requerendo obviamente nenhuma luta especial da parte de
ninguém para conseguí-la. De fato a própria palavra “conseguir” estaria fora de
lugar ao referir-se a uma experiência humana universal e inevitável. São Paulo
não poderia evitar esta ressurreição, de acordo com o ponto de vista dos
Cristãos modernos. Qual seria então a ressurreição a ser conseguida para a qual
ele estava fazendo tão estrênuos esforços? Uma vez mais a única resposta vem
dos Mistérios. Neles o Iniciado se aproximava da Iniciação que libertava do
ciclo do renascimento, o ciclo da geração, era chamado de “o Cristo sofredor”,
ele compartilhava dos sofrimentos do Salvador do mundo, era crucificado
misticamente, “tornado conforme à Sua morte”, e então conseguia a ressurreição,
a companhia do Cristo glorificado, e, depois, a morte já não tinha poder sobre
ele (Apocalipse, i, 18. “Eu sou Aquele que vive, esteve morto e ressurgiu, e
vive eternamente. Amen”). Este era o “prêmio” em direção ao qual o Apóstolo estava
se esforçando, e ele urge “todos os que são perfeitos”, não o crente comum,
para que também se esforcem deste modo. Que não se contentem com o que já
obtiveram até então, mas que se esforcem por mais.
Esta semelhança com Cristo
do Iniciado, de fato, é o próprio trabalho dos Mistérios Maiores, como veremos
em maior detalhe quando estudarmos “O Cristo Místico”. O Iniciado já não devia
ver o Cristo como fora de si mesmo. “Embora tenhamos conhecido o Cristo na
carne, deste modo já não o conhecemos” (II Coríntios, V, 16).
O crente comum havia sido “revestido
de Cristo, assim como todos de vós que fostes batizados em Cristo se revestiram
de Cristo” (Gálatas, III, 27). Então eles se tronavam os “bebês em Cristo”, a
quem já se fez referência, e Cristo era o Salvador de quem eles buscavam ajuda,
conhecendo-O “na carne”. Mas quando eles haviam vencido a natureza inferior e
já não eram “carnais”, então eles entrariam em um caminho mais elevado, e se
tornariam eles mesmo Cristo. Isto que ele mesmo já havia conseguido era o
desejo do Apóstolo para os seus seguidores. “Meus filhos, de quem sofro as
dores do parto até que Cristo seja formado em vós” (Gálatas, IV, 19). Ele já
era seu pai espiritual, “tendo-vos gerado através do evangelho” (I Coríntios,
IV, 15). Mas agora ele era como aquele que gera “novamente”, como se fosse sua
mãe para levá-los ao segundo nascimento. Então o Cristo Infante, a Santa
Criança, nascia na alma, “o homem oculto no coração” (I Pedro, III, 4), e o
Iniciado se tornava assim “a Criancinha”; daí por diante ele devia viver em sua
pessoa a vida do Cristo, até que se trinasse o “homem perfeito”, crescendo “até
a medida da plena estatura de Cristo” (Efésios, IV, 13). Então ele, como São
Paulo estava fazendo, repetia em sua própria carne os sofrimentos de Cristo
(Colossenses, I, 24) e sempre tinha “junto a si a morte do Senhor Jesus”, para
que pudesse dizer com verdade “sou crucificado com Cristo; não obstante eu
vivo; embora não seja eu, mas é Cristo que vive em mim” (Gálatas, II, 20).
Assim o Apóstolo estava ele mesmo sofrendo; assim ele descrevia si próprio. E
quando a luta termina, quão diferente é o tom calmo de triunfo sobre árduos
esforços dos primeiros anos: “Agora estou pronto para ser oferecido, e o tempo
de minha partida está próximo. Eu lutei a boa luta, terminei minha carreira,
guardei a fé; por isso me espera uma coroa de justiça” (II Timóteo, IV, 6-8).
Esta era a coroa dada “ a ele que vencera”, de quem é dito pelo Cristo
Ressurrecto: “Eu farei dele um pilar no Templo de meu Deus; e dali não sairá
mais” (Apocalipse, III, 12). Pois após a “Ressurreição” o Iniciado se tornava o
Homem Perfeito, o Mestre, e já não sai do Templo, mas dali serve e guia os
mundos.
Pode ser bom assinalar,
antes de encerarmos este capítulo, que o próprio São Paulo sanciona o uso do
ensinamento teórico místico na explicação dos eventos históricos registrados
nas escrituras. A história escrita ali não é considerada por ele um mero
registro de fatos, que ocorreram no plano físico. Verdadeiro místico, ele via nos
eventos físicos as sombras das verdades universais sempre ocorrendo nos mundos
mais altos e internos, e sabia que os eventos escolhidos para serem preservados
nos escritos ocultos eram aqueles mais típicos, cuja explicação serviria à
instrução humana. Assim ele toma a história de Abraão, Sarai, Hagar, Ismael e
Isaac, e dizendo que “aquelas coisas são alegorias”, ele passa a dar a
interpretação mística (Gálatas, IV, 22-31). Referindo-se à fuga dos israelitas
do Egito, ele fala do Mar Vermelho como um batismo, do maná e da água como
comida e bebida espirituais, da rocha de onde a água fluiu como sendo o Cristo
(I Coríntios, X, 1-4). Ele vê o grande mistério da união de Cristo com Sua
Igreja na relação de marido e mulher, e fala dos Cristãos como sendo a carne e
os ossos do corpo de Cristo (Efésios, V, 23-32). O autor desta Epístola aos
Hebreus alegoriza todo o sistema de culto Judeu. No Templo ele vê um espelho do
Templo celeste, no Sumo Sacerdote ele vê Cristo, nos sacrifícios vê a doação do
Filho imaculado; os sacerdotes do Templo não passam de “exemplos e sombras das
coisas celestes”, do sacerdócio celeste servindo no “verdadeiro tabernáculo”.
Uma alegoria muito elaborada é assim
desenvolvida nos capítulos III a X, e o escritor alega que o Espírito Santo
significava assim o sentido mais profundo; tudo era “uma imagem para esta época”.
Nesta visão dos escritos
sagrados não é alegado que os eventos registrados não tenham tido lugar, mas
apenas que sua ocorrência física era coisa de menor importância. Uma explicação
como esta é o desvelar dos Mistérios Menores, o ensinamento místico que é
permitido dar ao mundo. Não é, como muitos imaginam, um mero jogo de
imaginação, mas é a atividade de uma verdadeira intuição, vendo os protótipos
nos céus, e não somente as sombras lançadas por eles na tela do tempo terreno.
Enquanto possa ocorrer que
alguns estejam querendo admitir a posse pelo Apóstolo e seus sucessores imediatos
de um conhecimento das coisas espirituais mais profundo do que o que era
corrente entre as massas dos crentes em seu redor, poucos provavelmente
desejarão dar o próximo passo, e, deixando este círculo enfeitiçado, aceitar os
Mistérios da Igreja Primitiva como o depositário de seus ensinamentos sagrados.
Mesmo que tenhamos São Paulo fazendo os preparativos para a transmissão do
ensino não escrito, iniciando ele mesmo a São Timóteo, e instruindo São Timóteo
para que por sua vez iniciasse outros, os quais o dariam a ainda outros, depois
deles. Vemos assim um arranjo de quatro gerações sucessivas de instrutores,
citadas nas mesmas Escrituras, e eles com muita folga sobrepujariam os
escritores da Igreja Primitiva que testemunham a existência dos Mistérios. Pois
entre eles há discípulos dos próprios Apóstolos, embora as declarações mais
definitivas sejam daqueles afastados dos Apóstolos por um instrutor
intermediário. Porém, assim que iniciamos o estudo dos escritos da Igreja
Primitiva, se nos deparam os fatos de que existem alusões que são inteligíveis
apenas considerando a existência dos Mistérios, e depois declarações de que os
Mistérios realmente existem. Isto poderia, é claro, ser esperado, analisando as
condições em que o Novo Testamento deixa o assunto, mas causa satisfação
descobrir que os fatos correspondem às expectativas.
As primeiras testemunhas
são aqueles chamados Padres Apostólicos, os discípulos dos Apóstolos; mas
demasiado pouco subsiste de seus escritos, e mesmo o que resta é questionado. Quando
não são escritas controversamente, as declarações não são tão categóricas como
as dos escritores posteriores. Suas cartas são para o encorajamento dos
crentes. Policarpo, Bispo de Smirna, e, juntamente com Inácio, discípulo de São
João (The Martyrdom of Ignatius, vol. I, cap. III - Os texto utilizados provêm
da Ante-Nicene Christian Library, de Clarke, um utilíssimo compêndio de
antigüidades Cristãs. O número do volume é o seu número na série), expressa a
esperança de que seus correspondentes sejam “bem versados nas sagradas
Escrituras e que nada lhes seja oculto; mas para mim este privilégio ainda não
foi outorgado” (Ibid., The Epistle of Polycarp, cap. XII). - escrevendo,
aparentemente, antes de alcançar a Iniciação plena. Barnabé fala em comunicar “alguma
porção do que eu mesmo recebi” (Ibid., The Epistle of Barnabas, cap. I) e
depois de expor a Lei misticamente, declara que “nós, então, entendendo
corretamente Seus mandamentos, os explicamos do modo como o Senhor pretendeu
que significassem” (Ibid., cap. X). Inácio, Bispo de Antióquia, um discípulo de
São João (Ibid., The Martyrdom of Ignatius, cap. I), fala de si mesmo como “ainda
não sendo perfeito em Jesus Cristo. Pois só agora iniciei a ser um discípulo, e
falo a vós como a meus condiscípulos” (Ibid., Epistle of Ignatius to the
Ephesians, cap. III), e fala deles como “iniciados nos mistérios do Evangelho
com Paulo, o santo, o martirizado” (Ibid., cap. XII). Mais uma vez ele diz: “Poderia
eu não vos escrever coisas mais cheias de mistério? Mas temo em fazê-lo,
podendo prejudicar-vos, a vós que sois apenas bebês. Perdoai-me a este
respeito, pois não sendo capazes de receber todo seu peso, seríeis sufocados
por elas. Pois mesmo eu, embora ligado (por Cristo) e sendo capaz de entender
coisas celestiais, as ordens angélicas, e os diferentes tipos de anjos e
hierarquias, a diferença entre tronos e potestades, a grandiosidade dos éons, e
a preeminência dos querubins e serafins, a sublimidade do Espírito, o reino do
Senhor, e acima de tudo a incomparável majestade de Deus Todo-poderoso - embora
eu conheça estas coisas, ainda não sou de modo algum perfeito, nem sou um
discípulo da estatura de Paulo ou Pedro” (Ibid., To the Trallians, vol. 2).
Esta passagem é interessante, ao indicar que a organização das hierarquias
celestes era um dos assuntos sobre os quais era dada instrução nos
Mistérios. Novamente ele fala do Sumo
Sacerdote, do Hierofante, “a quem foi confiado o Santo dos Santos, e quem
sozinho foi informado dos segredos de Deus” (Ibid., To the Philadelphians, cap.
IX).
Passamos a seguir para São
Clemente de Alexandria e seu discípulo Orígenes, os dois escritores dos séculos
II e III que mais nos contam sobre os Mistérios na Igreja Primitiva; embora a
atmosfera geral seja cheia de alusões místicas, os dois são claros e
categóricos em suas asserções de que os Mistérios eram uma instituição
reconhecida.
São Clemente foi um
discípulo de Panteno, e fala dele e de dois outros, ditos ser provavelmente
Tatiano e Teódoto, como “preservando a tradição da doutrina bendita derivada
diretamente dos santos Apóstolos Pedro, Tiago, João e Paulo” (Clemente de
Alexandria, Stromata, livro I, cap., I - A.-N.C.L, vol. IV), assim seu elo com
os próprios Apóstolos tem apenas um intermediário. Ele foi o diretor da Escola
Catequética de Alexandria em 189 dC, e morreu cerca de 220 dC. Orígenes nasceu
em torno de 185 dC, foi seu discípulo, e é, talvez, o mais instruído dos
Padres, e um homem da mais rara beleza moral. Estas são as testemunhas de quem
recebemos o mais importante registro da existência de Mistérios definidos na
Igreja Primitiva.
Os Stromata, ou Miscelânea, de São Clemente, são nossa fonte de informação sobre os Mistérios naquela sua época. Ele mesmo fala destes escritos como uma “miscelânea de notas Gnósticas, de acordo com a verdadeira filosofia” (Stromata, livro I, cap. XXVIII - A.-N.C.Lib., vol. IV), e as descreve também como memorandos dos ensinamentos que ele mesmo recebera de Panteno. A passagem é instrutiva: “O Senhor... permitiu-nos comunicar aqueles Divinos Mistérios, e aquela santa luz, àqueles capazes de os receber. Ele certamente não revela à multidão o que não pertence à multidão, mas aos poucos que Ele sabe que lhes pertencem, que são capazes de recebê-los e ser moldados de acordo com eles. Mas coisas secretas são confiadas á voz, e não ao escrito, como é o caso com Deus. E se alguém diz (parece que mesmo naquele tempo havia alguns que objetavam de alguma verdade ser ensinada secretamente!) que está escrito ‘Não há nada escrito que não seja revelado, nem oculto que não seja descoberto’, que também ouça de nós, que àquele que ouve secretamente, mesmo o que é secreto será manifesto. Isto é o que foi predito por aquele oráculo. E para aquele que é capaz de conservar em segredo o que lhe é transmitido, o que é velado lhe será descoberto como verdade; e o que está oculto da maioria aparecerá manifesto aos poucos... Os Mistérios são confiados misticamente, para o que é falado possa estar na boca do que fala; não em sua voz, mas em seu entendimento... O escrito destes meus memoranda, bem o sei, é fraco quando comparado com aquele espírito, que é cheio de graça, o qual eu tive o privilégio de ouvir. Mas será uma imagem para recordar o arquétipo àquele que foi tocado com o Tirso”. O Tirso, podemos assinalar, era a vareta levada pelos Iniciados, e os candidatos eram tocados com ela durante a cerimônia de Iniciação. Tinha uma significação mística, simbolizando a medula espinhal e a glândula pineal nos Mistérios Menores, e um Bastão, conhecido dos Ocultistas, nos Maiores. Dizer, portanto, “àqueles que foram tocados com o Tirso”, era exatamente o mesmo que dizer, “àquele que foi iniciado nos Mistérios’. Clemente prossegue: “Nós professamos não explicar coisas secretas suficientemente - longe disto - mas apenas recordá-las à memória, se tivermos esquecido algum detalhe, ou com o intuito de não esquecer. Muitas coisas, sei bem, nos escapam, na da passagem do tempo, e que deixamos de lado sem as escrever... Há coisas então de que não guardamos memória alguma; pois o poder que estava nos homens benditos era grande”. Uma experiência freqüente daqueles ensinados pelos Grandes Seres, pois Sua presença estimula e torna ativos poderes que normalmente estão latentes, e que o discípulo, desassistido, não pode evocar. “Também há coisas que permanecem de todo não registradas; que agora nos fogem; e outras que estão confusas, tendo se desvanecido na própria mente, uma vez que tal tarefa não é simples para os inexperientes; estas eu reavivo em meus comentários. Algumas coisas eu omito de propósito, exercitando uma sábia seleção, receando escrever o que eu evitei falar; nã